A proposta de Nayib Bukele de transformar El Salvador no “país do bitcoin” prometeu um futuro brilhante, repleto de prosperidade e inclusão financeira. Ao anunciar a adoção da criptomoeda durante a conferência Bitcoin 2021, o presidente salvadorenho despertou entusiasmo e esperança, tanto em sua nação quanto no exterior. Contudo, cinco anos após a implementação da medida, a realidade se mostrou bem diferente das promessas.
Em setembro de 2021, El Salvador fez história ao se tornar o primeiro país a adotar o bitcoin como moeda de curso legal, ao lado do dólar americano. As expectativas eram altas: o governo assegurava que a nova moeda facilitaria remessas, reduziria custos e abriria portas para investimentos. Um fundo de US$ 150 milhões foi criado, e incentivos foram oferecidos aos cidadãos para a adoção da nova tecnologia.
No entanto, a adesão ao bitcoin foi decepcionante. Uma pesquisa realizada pelo Iudop revelou que 71% dos entrevistados não viram benefícios na adoção da criptomoeda. Além disso, uma pesquisa da CID-Gallup de 2022 mostrou que apenas 20% das empresas aceitavam bitcoin, e a utilização da criptomoeda para o pagamento de impostos era quase inexistente.
O governo, ciente da crescente insatisfação popular, tentou contornar a situação. Bukele continuou a comprar bitcoins com dinheiro público, mesmo diante de alertas sobre os riscos financeiros que isso poderia acarretar. Em 2023, a Assembleia Legislativa aprovou a Lei de Emissão de Ativos Digitais, visando atrair investidores estrangeiros, mas até hoje, os ambiciosos “títulos vulcão”, que prometeriam impulsionar a economia, não foram emitidos.
As promessas grandiosas de Bukele, incluindo a construção de uma futurista Bitcoin City, também não se concretizaram. O uso do bitcoin permanece restrito, e a maioria dos salvadorenhos ainda não se sente confortável com a nova moeda. A pesquisa de janeiro de 2025 mostrou que 91,8% da população não havia utilizado a criptomoeda no ano anterior, evidenciando um ceticismo generalizado.
O impacto das remessas, uma das promessas centrais do governo, também foi mínimo. A utilização de carteiras digitais para transferências de criptomoedas representou apenas 0,7% do total enviado ao país entre janeiro e abril de 2026. Os métodos tradicionais de envio de dinheiro ainda prevalecem.
Com a pressão do Fundo Monetário Internacional (FMI) e a necessidade de reduzir riscos associados ao bitcoin, o governo revisou sua legislação, tornando a adoção da criptomoeda opcional. A transferência do controle da carteira digital estatal Chivo para uma empresa privada também sinaliza uma mudança de direção em relação ao sonho inicial de Bukele.
A experiência de El Salvador com o bitcoin é uma lição sobre as dificuldades de implementar mudanças tão significativas em um país com uma população que, em grande parte, permanece cética. Embora tenha colocado a nação no centro das atenções globais, a realidade mostra que a adoção de criptomoedas não é uma panaceia, e a confiança do povo é essencial para qualquer nova moeda prosperar.




